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Palestras

August 28th, 2009 (08:50 am)
current song: Little Barrie - Thinking On The Mind | Powered by Last.fm

A segunda

Convidado para mais uma palestra em uma escola secundarista, aceitei sem hesitar. Já havia superado o trauma causado pelo desastre da última e de fato sentia-me empolgado em falar a um grande grupo de jovens novamente. Segundo me informaram por carta, eu dividiria o palanque com Leonard Goepp, a quem tenho algum respeito, e outros dois escritores. Goepp era conhecido pelas nuances de arrogância, do tipo que considera o maior dos elogios ofensivo por insuficiência, mas eu o respeitava pelos contos, que iam do humor irônico extremo a tragédias de amplitudes inconcebíveis.

Cheguei ao colégio antes do horário previsto, em tempo de encontrá-lo conversando com algumas das estudantes. Seus intuitos não me interessavam. Entrei no ginásio, onde alguns alunos já escolhiam seus lugares, não pela qualidade da localização em relação ao palco, mas pelo que eles consideravam a qualidade das companhias mais próximas. Subi direto ao palco. Depositei minha vodca, sempre taticamente disfarçada em uma garrafa de água mineral, sobre a mesa e acendi um cigarro, aproveitando enquanto o diretor não chegava e os poucos professores no auditório ocupavam-se com seus alunos. Alguns desses comentavam e riam quando me percebiam fumando, mas isso foi tudo.

A palestra teve início dez minutos depois. à frente da turba de adolescentes desinteressados sentavam-se eu, paul dubereau, o diretor, um tal jorel, e goepp, que abriu a sessão perguntando em tom de ironia:

"Mas todos aqui sabem ler?"

"Alguns até escrevem o próprio nome!", respondi.

O diretor interpôs-se:

"Bem, vamos dar início a essa palestra discutida. gostaria de começar por nosso querido romancista jorel, que em seus tempos de estudante circulava por essas mesmas dependências..."

"Quer dizer que estou ao lado de um reduto dessa espelunca?!", interrompeu Goepp, ao que respondi:

"Pois eu também já circulei por essa espelunca, não com muito orgulho, é claro, mas independente desse passado enojante saí-me muito bem!"

"O que dizes, assim como o que escreves, ignoro depois de tanto desprazer que trouxeram. ouço muito sobre ti e não enxergo nada além de um pós-adolescente ébrio vomitando nas páginas suas frustrações transformadas em demência."

"Fala da minha demência? ela não é maior que a de um irlandês obcecado pelo próprio e quase precário talento e cujos contos, todos, embutem-se de personagens ébrios agindo como pós-adolescentes."

"PÓS-adolescente, cara? isso nem existe!", exaltou-se alguém na platéia.

"Espera dez anos, pequenino, e tu vai saber.", respondeu o irlandês.

O diretor, elevando a voz:

"Senhor, por favor, estamos aqui para falar de literatura!"

"É o que fazíamos" - retruquei - "... até sermos interrompidos por um desses pulguentos vasilhames de hormônios que pagam teu salário quase tanto quanto pagam as contas da escola."

Enrubescido, o diretor levantou-se e caminhou até a saída do auditório acompanhado de vaias e dos outros dois convidados, que conversavam entre si. tomei um gole da vodca e acendi outro cigarro, oferecendo um a meu companheiro de discurso. enquanto esperávamos algum encarregado da escola vir mandar-nos embora, ficamos os dois sentados fumando nossos cigarros e trocando algumas palavras.

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Palestras

August 28th, 2009 (01:53 am)
current location: Porto Alegre

A primeira

Há mais ou menos uns dois meses fui convidado para participar de uma palestra-debate sobre literatura em um colégio da minha cidade natal. Centenas de alunos do segundo grau me assistiriam, contra a sua vontade, falando sobre livros que eles liam contra sua vontade, mencionando livros que eles jamais viriam a ler e lendo trechos literários que eles jamais conseguiriam entender. Sabia que seria uma experiência tão desagradável quanto enrabar uma virgem na presença de sua mãe, e portanto não poderia fazê-lo sóbrio. Obviamente não seria permitiriam bebidas alcoólicas durante a palestra, então tive que tomar uma garrafa de conhaque no caminho para lá. Levei um pouco de vodka em uma dessas pequenas garrafas de água mineral, apenas para me servir de alguns goles enquanto falasse. O debate com alguns professores que sempre respeitei estava sendo maravilhoso, mas não podia deixar de notar a reação de alguns garotos da platéia cada vez que eu tomava um gole de vodka e fazia aquela faceta de um adolescente tomando sua primeira dose de destilado. Ou talvez fossem meus olhos vermelhos a pista cagüete. De qualquer forma, aqueles pirralhos estavam me dando nos nervos, e se não fossem duas vezes mais fortes e mais jovens que eu, teria levantado- me e enfiado o que sobrava de minha vodka na garganta de algum. Ou em qualquer outra cavidade de seu corpo. Interrompi-me em minha própria dissertação sobre a falta de sensibilidade da maioria dos professores de literatura da atualidade para lidar com um dos fedelhos:

“Posso saber do que diabos o espinhento vestindo um blusão laranja está rindo?”

“Eu?’, pronunciou o inqüisitivo mas não muito brilhante jovem referido.”

“Não, o outro babaca de blusão laranja escondido atrás de ti.”

Se o bastardo não tivesse realmente olhado pra trás antes de ter certeza que era a ele que eu me referia, talvez eu tivesse abandonado a incrível disputa verbal ali mesmo e continuado a palestra. Não, sem chance. De qualquer forma, senti-me comovido o suficiente para orientá-lo.

“Sim, tu mesmo, porra. Vai me responder ou não?”

“Foi nada não. Só achei engraçado o senhor tá bêbado durante uma palestra.”

“Tu não precisa me chamar de senhor. Pra ti, ‘quem eu gostaria de ser se tivesse colhões e cérebro o suficiente’ já está bom. E por que isso seria engraçado?”

“Ahn?”

“A bebida”

“Ah... Tu não acha que isso não é hora nem lugar de estar bebendo?”

“Eu teria bebido todos os outros dias em que pisei em uma escola, se tivessem me permitido. Faz com que eu me sinta bem.”

“Tu precisa de álcool pra se sentir bem, e quer dar uma palestra pra gente? Não é por nada, mas tu é o único aqui sem futuro.”

“Se eu tivesse que escolher alguém pra dizer que é uma pessoa sem futuro, seria tu. Mas tu tem um. Triste, solitário, fracassado, e dolorido, mas não deixa de ser um futuro. Me diz uma coisa: com que freqüência tu faz sexo?”

“Isso não é assunto teu.”

“Concordo. Foi uma boa resposta, embora eu tenha absoluta certeza de que se a resposta não fosse menos de duas ou três vezes por mês, tu teria falado sem pestanejar. Mas o que importa é que tu faz sexo, certo?”

“Claro.”

“E tu gosta.”

“Sim.”

“E com que freqüência tu se masturba? Todo dia? Quase todo dia?”

Depois de alguns segundos de introspeção...

“Uma vez a cada duas semanas, mais ou menos.”

“Eu não quero ser o dono da verdade aqui, e não estou sendo, já que isso é bem conhecido por todos. O fato é que qualquer adolescente que diz que não toque uma bronha todos os dias só pode ser um mentiroso ou um eunuco. Mas tu se masturba. E, de vez em quando, faz sexo. E são duas coisas que tu gosta, não são?”

“São.”

“E se esses atos fossem motivos de recriminação, como já foram em outros tempos, tu faria mesmo assim, não faria?”

“Sim...claro.”

“Ótimo. Então tu não tem moral nenhuma pra comentar ou ironizar o meu alcoolismo.”

Claro que eu sabia que não poderia continuar a palestra com a mesma naturalidade de antes, e estava feliz por isso. Só queria uma desculpa pra dar o fora dali o mais rápido possível, e se eles pedissem meu pagamento de volta sob o pretexto de que eu não terminei o trabalho para o qual fui contratado, o mandaria anexo a uma foto da mãe de cada um dos contratantes nua em pêlo. Não que eu tivesse acesso a isso, mas nem mesmo viria a ser necessário. Tendo a grana, tarefa semi-cumprida e a desculpa que tanto queria, peguei minha garrafa d’água, enfiei-a bruscamente em minha pasta e fui embora em silêncio. Teria acendido um cigarro ali mesmo, apenas pra pisar no calo da diretoria. Mas isso seria extremamente infantil. E eu tinha deixado a carteira de Marlboro no carro.

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