Palestras
current song: Little Barrie - Thinking On The Mind | Powered by Last.fm
A segunda
Convidado para mais uma palestra em uma escola secundarista, aceitei sem hesitar. Já havia superado o trauma causado pelo desastre da última e de fato sentia-me empolgado em falar a um grande grupo de jovens novamente. Segundo me informaram por carta, eu dividiria o palanque com Leonard Goepp, a quem tenho algum respeito, e outros dois escritores. Goepp era conhecido pelas nuances de arrogância, do tipo que considera o maior dos elogios ofensivo por insuficiência, mas eu o respeitava pelos contos, que iam do humor irônico extremo a tragédias de amplitudes inconcebíveis.
Cheguei ao colégio antes do horário previsto, em tempo de encontrá-lo conversando com algumas das estudantes. Seus intuitos não me interessavam. Entrei no ginásio, onde alguns alunos já escolhiam seus lugares, não pela qualidade da localização em relação ao palco, mas pelo que eles consideravam a qualidade das companhias mais próximas. Subi direto ao palco. Depositei minha vodca, sempre taticamente disfarçada em uma garrafa de água mineral, sobre a mesa e acendi um cigarro, aproveitando enquanto o diretor não chegava e os poucos professores no auditório ocupavam-se com seus alunos. Alguns desses comentavam e riam quando me percebiam fumando, mas isso foi tudo.
A palestra teve início dez minutos depois. à frente da turba de adolescentes desinteressados sentavam-se eu, paul dubereau, o diretor, um tal jorel, e goepp, que abriu a sessão perguntando em tom de ironia:
"Mas todos aqui sabem ler?"
"Alguns até escrevem o próprio nome!", respondi.
O diretor interpôs-se:
"Bem, vamos dar início a essa palestra discutida. gostaria de começar por nosso querido romancista jorel, que em seus tempos de estudante circulava por essas mesmas dependências..."
"Quer dizer que estou ao lado de um reduto dessa espelunca?!", interrompeu Goepp, ao que respondi:
"Pois eu também já circulei por essa espelunca, não com muito orgulho, é claro, mas independente desse passado enojante saí-me muito bem!"
"O que dizes, assim como o que escreves, ignoro depois de tanto desprazer que trouxeram. ouço muito sobre ti e não enxergo nada além de um pós-adolescente ébrio vomitando nas páginas suas frustrações transformadas em demência."
"Fala da minha demência? ela não é maior que a de um irlandês obcecado pelo próprio e quase precário talento e cujos contos, todos, embutem-se de personagens ébrios agindo como pós-adolescentes."
"PÓS-adolescente, cara? isso nem existe!", exaltou-se alguém na platéia.
"Espera dez anos, pequenino, e tu vai saber.", respondeu o irlandês.
O diretor, elevando a voz:
"Senhor, por favor, estamos aqui para falar de literatura!"
"É o que fazíamos" - retruquei - "... até sermos interrompidos por um desses pulguentos vasilhames de hormônios que pagam teu salário quase tanto quanto pagam as contas da escola."
Enrubescido, o diretor levantou-se e caminhou até a saída do auditório acompanhado de vaias e dos outros dois convidados, que conversavam entre si. tomei um gole da vodca e acendi outro cigarro, oferecendo um a meu companheiro de discurso. enquanto esperávamos algum encarregado da escola vir mandar-nos embora, ficamos os dois sentados fumando nossos cigarros e trocando algumas palavras.




